segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sobre memórias.


Esses dias eu estava em um aula de Filosofia, meio distraída. Sempre me dei bem com essa matéria, mas nunca consegui prestar muita atenção na aula. Acho que meu desinteresse pela aula se junta com o desânimo do meu professor para nos passar a matéria e eu acabo viajando no meus pensamentos. E foi exatamente isso que aconteceu. Deixei minha cabeça caída para baixo, de modo que o que eu via era meu cabelo longo e castanho, jogado sobre meu corpo, em contraste com meu longo casaco de algodão azul-escuro. Até aí, toda essa situação é completamente normal e sem significância, mas foi quando eu me esqueci de onde estava e percorri minhas lembranças que minha memória despertou. Há alguns anos, morei em outro estado: Belo Horizonte. Eu tinha mudado para lá no meio do ano, quando todos já tinham seus amigos e panelinhas formadas. No primeiro dia de aula em minha nova escola, até que me saí bem, consegui fazer uma amiga nova. Mas eu constantemente me sentia sozinha. Nos primeiros bimestres eu não fui muito bem nas provas, não conseguia prestar muita atenção. A cidade era maravilhosa, só que eu não conseguia me desligar do Rio de Janeiro, dos meus amigos, da minha família, do meu antigo colégio. Tudo era recente demais, e a mudança aconteceu muito subitamente. (Eu mudei porque meu pai foi transferido da empresa onde ele trabalha, do Rio para BH, por período indefinido.) Então, constantemente, durante a maioria das aulas, eu costumava abaixar minha cabeça, olhar para meu grande cabelo castanho jogado por cima de um casaco ridiculamente grande, que minha mãe tinha comprado para mim na lojinha da escola. Ele também era azul-escuro. Tudo voltou à minha mente, em questão de segundos. Minha estadia lá (que acabou durando apenas 6 meses), a solidão que eu sentia, as amizades feitas (e com as quais perdi contato), o cinema com salas pequenas em qual eu ia toda semana, a independência que eu sentia ao andar por aqueles morros e seus ventos gelados, o moço da cantina da minha escola que ria do meu sotaque, mas que sempre me dava os guardanapos e canudos em minha mão, ao invés de deixar que eu mesma os retirasse do balcão... O menino com qual eu dei meu primeiro beijo, a dificuldade que tive para acordar às 6hrs da manhã com um frio de 9ºC do lado de fora da casa, a nova manicure com qual fazia as unhas, e que sempre as deixava cheia de bolinhas, o dia em que chorei quando fui rejeitada em duas escolas para as quais fiz teste para entrar, o pânico que senti quando entrei sozinha na nova escola e nenhuma das meninas às quais fui apresentada falou comigo, o mercado que vendia o melhor suco de açaí com banana que eu já tomei em minha vida, uma das coisas de que senti saudades ao deixar a cidade. Levei  um susto, e fiquei impressionada com a minha memória. As coisas que tentei esquecer, as que tentei preservar em minhas lembranças, as que eu achava que nem eram importantes, todas muito vivas dentro de mim, até hoje. Tudo porque eu abaixei a cabeça e vi os mesmos cabelos castanhos e um casaco azul-escuro, também ridiculamente grande, e descobri que não somos nós que controlamos nossas recordações, e sim o contrário.